quinta-feira, 23 de julho de 2009

A ESQUERDA, A UTOPIA E O HOMEM...

É com alegria que leio que as ideias da esquerda sempre pareceram amigas da utopia, e se baseiam na fé. A motivação religiosa já me parece deslocada.
Para além de me definir como homem de esquerda, defino-me também como socialista. Não como socialista de esquerda, por oposição ao socialismo de centro, mas como socialista. Não vejo como é possível ser socialista sem se ser de esquerda. Da mesma forma que não vejo como é possível ser-se uma coisa ou outra sem se acreditar, antes de tudo o resto, no homem.
Se calhar esta é a maior de todas as utopias: a crença inabalável no homem. O homem, um “bicho” social, simultaneamente criatura e criador. Com isto afasto-me tanto das ideias determinalistas que nos transformam em meros “actores” num enredo pré determinado, quanto das que nos vitimizam atirando as culpas para uma sociedade que não está preparada para nos receber. A ideia de criatura é herdeira das influências genéticas e, principalmente, culturais e ambientais, enquanto a de criador leva-nos ao conceito de livre arbítrio, capaz de nos refazer enquanto indivíduos, e capaz de influenciar o colectivo tanto quanto o colectivo os influência. Nesta medida a crença na utopia não pode ser senão o motor… nunca prozac.
(PS – refiro às ideias da esquerda sem o adjectivo revolucionária. Não sei bem qual o sentido atribuido, sendo certo que isso daria “panos para mangas”.
Contudo não resisto à tentação de acrescentar: agrada-me a constatação de que revolucionárias são as ideias, pelo que são estas que fazem as revoluções e não o poder bélico que por vezes lhes estão associadas.
Quando ao ser socialista, bem, se a ideia da esquerda revolucionária dá “panos para mangas”, o que dizer do conceito do socialismo ou do que é ser-se socialista?).


“Ora, caro amigo, nada disto envolve qualquer risco nem sacrifício de maior na sociedade em que vivemos; é uma luta sem guerra”.
Não podia estar mais em desacordo.
Hoje, como sempre, acreditar em minoria acarreta sempre riscos e sacrifícios pessoais e, frequentemente, familiares (o contacto que se perde com um pai, uma mãe, um filho… um divórcio). É um emprego ou uma progressão na carreira que se perde, um salário que teima em não aumentar, é um amigo que não percebe que não podemos dar um jeito porque o que pede vai contra aquilo por que nos batemos diariamente, etc, etc… Neste contexto não me agrada o termo guerra, mas que é uma luta…
Porque todos queremos a paz e a felicidade para os nossos filhos, hoje.
Obviamente, isto não nos transforma em mártires, antes em “formigas”, ora de Esopo ora de Zeca Afonso, frequentemente em ambas simultaneamente.
E é claro que os maiores inimigos dos ideais, ou das causas, ou das utopias são os homens. Porque não somos perfeitos, e porque não queremos todos exactamente o mesmo.
(PS – ainda assim é preciso cautela a defender esta ideia: a falha não está nas utopias mas nos homens que as tentaram levar a cabo. Ainda não vai há muito tempo era possível ouvir-se este mesmo raciocínio para defender que o que falhara não fora o comunismo… É que se os homens falham, as utopias são criações do homem).

2 comentários:

  1. Só uma observaçãozinha: quando afirmo que o nosso ideal socialista é uma luta sem guerra, digo-o por respeito (um respeito imenso) por todos os milhões de camaradas que sofreram no corpo e na alma sacrifícios tremendos em nome destes mesmos ideais. Quando digo que isto não envolve para nós riscos nem sacrificios é porque, para mim, não é risco nem sacrifício enfrentar a incompreensão de amigos e familiares e porque tenho a sorte de viver num país onde (ainda) é possivel defender a justiça social, a igualdade, a solidariedade, a defesa instransigente dos mais pobres, sem ser perseguido.
    De resto, completamente de acordo com o teu post.

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