segunda-feira, 20 de julho de 2009

A aposta de Pascal e a utopia socialista

Uma breve troca de comentários com o Manuel Cardoso sobre o meu texto acerca de O Zero e o Infinito, mostrou-me que, certamente por culpa minha, ele poderia sugerir uma visão pessimista das utopias revolucionárias e uma atitude conformista perante o “capitalismo real”.

Não era essa a minha intenção e, portanto, gostava de regressar a esse tema. Há, de facto, um problema que o livro de Koestler levanta e que é o da velha questão dos fins e dos meios. O problema das grandes causas é que tendem a justificar os mais horríveis processos. E isso não é um exclusivo das utopias revolucionárias. Veja-se o caso das Cruzadas ou da Inquisição: quantos crimes foram cometidos em nome de um Bem supremo? Mas significa isto que devemos desistir de sonhar?

É aqui que me socorro de Pascal. Afinal o que é que arriscamos ao assumir a nossa Fé, se não podemos viver sem ela, isto é, sem acreditarmos na possibilidade de realização das esperanças sobre as quais fundamos o sentido das nossas vidas? Adaptando o argumento pascaliano da aposta na existência de Deus: ainda que sejam mínimas as possibilidades da Utopia, no caso de apostarmos nessa possibilidade e vencermos, temos tudo a ganhar; no caso dela se verificar errada, não temos nada a perder. Se o capitalismo nos é intolerável, o que é que podemos perder se apostarmos na possibilidade do Socialismo?

Não posso nem quero aconselhar ninguém a desistir das suas ambições políticas mais generosas. (Se assim fosse, o que andaria eu a fazer no Bloco de Esquerda?) Proponho apenas que se inclua entre as nossas mais caras convicções a ideia da falibilidade das nossas propostas. A nossa vida avança segundo um processo inevitável de “tentativa e erro”. A única coisa que posso desejar é que tenhamos a lucidez suficiente para saber reconhecer os nossos erros e a força bastante para encetarmos novas tentativas.
(P.S. Com o meu filho mais velho no acampamento dos jovens do BE e o meu filho mais novo a frequentar um curso de Verão na Universidade de Coimbra, eu e a minha mulher decidimos fazer umas curtas férias de 3 dias. Por isso, até 5ª feira, a minha colaboração no formiga fica suspensa.)

8 comentários:

  1. Sempre me pareceu que as ideias da esquerda revolucionária e amiga das utopias, têm uma espécie de motivação religiosa e se baseiam na fé - e não na razão e nos dados da experiência.

    Julgava, todavia, que os defensores de tais ideias não assumiam essa motivação. Afinal...

    Só 2 breves observações, que possivelmente não desconhece (só que não tira as devidas consequências):
    1. "Utopia" significa aquilo que não está em lugar nenhum.
    2. A aposta de Pascal é um dos argumentos filosóficos acerca de Deus mais fracos. A lista de objecções (admitidas mesmo por quem é religioso) é grande... Será que o que não funciona em relação a Deus funciona em relação à sociedade sem classes?
    Não me parece. Tal como "a religião é o ópio do povo", a sociedade sem classes e as outras ideias utópicas da esquerda revolucionária são... Prozac?!

    cumprimentos!

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  2. Meu caro Cruz Mendes, antes de mais os meus votos de que aproveites bem esses 3 dias e deixo-te aqui, para o teu regresso, umas notas sobre este teu texto.
    Em relação ao teu post sobre "O Zero e o Infinito" devo dizer que não te exprimiste mal, o que acontece é que aquilo que se escreve é sempre passível de ser encaminhado para onde queremos; eu levei as tuas ideias para a questão dos ideais e neste teu texto chegaste precisamente ao ponto para onde eu te quis desviar (desculpa:)).
    A grande questão está, a meu ver nisto: eu inscrevi-me no bloco de esquerda porque acredito que é possível conquistar uma sociedade mais justa; sou católico, se ser católico é admirar Jesus Cristo como um homem quase único na história da humanidade; sou socialista na mais "pura" das acepções - sonho com uma sociedade justa e igualitária e acredito que isso (ainda) é possível.
    Ora, caro amigo, nada disto envolve qualquer risco nem sacrifício de maior na sociedade em que vivemos; é uma luta sem guerra.
    Como sugeres (e muito bem)temos de voltar à velha questão dos fins e dos meios. No entanto, não tem de ser sempre verdadeiro esse postulado que referes: "O problema das grandes causas é que tendem a justificar os mais horríveis processos". Eu considero-me um homem "de causas" porque acredito nelas mas também porque acredito que essas causas não precisarão nunca de "horríveis processos". Quero (queremos, aliás) a paz e a felicidade para os nossos filhos. E essa paz há-de ser conseguida sem martírios.
    Historicamente falando, as grandes causas foram alvo de apropriação por parte de grandes autocratas e isso desvirtuou-as. Assassinou-as. É por isso que admiro Che Guevara mas desprezo Estaline. É por isso que admiro Jesus Cristo e abomino a maioria dos fazedores de crenças e dogmas que invadiram o Vaticano.
    Creio que os maiores inimigos dos ideais são aqueles que os utilizam para outros fins. Aí o ideal torna-se, ele próprio, um meio para justificar toda espécie de crimes.
    Creio que é possível acreditar e defender grandes ideais sem ter nada a perder se conseguirmos abdicar desses ideais no dia em que eles servirem outros interesses ou implicarem sacrifícios para a vida humana.
    Assim como não suporto a ideia de matar para impor a "democracia americana" também não suportarei um ideal socialista se um dia ele voltar a implicar atrocidades e crimes. A minha "crença" no projecto político do Bloco de Esquerda não implica qualquer simpatia para com outras interpretações dos ideais socialistas, nomeadamente aquela aberração que vemos na Coreia do Norte. Para mim, socialismo é justiça e humanismo. É paz e solidariedade. Defender isto, meu caro amigo, não nos vai, certamente, pedir o sacrifício individual. Penso que, ainda assim, temos alguma sorte porque outros (e alguns de nós) lutaram e sacrificaram-se (esses sim), para que vivamos num país onde ainda é possível defender grandes causas sem esses riscos.

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  3. Hmmm, interessante blogue.
    Mas, esta formiga, a de Esopo,é euivalente simbólico do Sancho Pança do Cervantes?
    Por oposição da Cigarra e do Quixote?

    É que achei swmpre a formiga da fábula um cruento e detestável traste...
    As "fézadas" utópicas (ou atópicas) não são mais atribuíveis ao canto de cigarras do que a marciais formigas e pachorrentos Sanchos?
    A alegoria não funciona lá muito bem.

    L.

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  5. Caro Carlos Pires:

    Agradeço o seu comentário e deixo-lhe aqui algumas notas:

    1) Não tenho a pretensão de escrever em nome da “esquerda revolucionária”, mas apenas em meu próprio nome.

    2) Na minha opinião, pelo menos num momento inicial, a nossa opção pela “esquerda” ou pela “direita” não se funda na Razão, mas nas confusas e múltiplas experiências que foram moldando a nossa sensibilidade. Nas razões do coração. Depois tentamos fundamentar e precisar teoricamente as opções que fizemos. E, então sim, temos de verificar se essas teorias foram ou não infirmadas pela prática. Pela minha parte, tenho tentado fazê-lo e é por isso que as minhas ideias “de esquerda” não são hoje idênticas às de 30 e tal anos atrás.

    3) Invocar a Fé (o termo é de facto forte, principalmente escrito com F) não nos remete necessariamente para o campo das crenças religiosas. Há cerca de um ano fiz um transplante de fígado, em circunstâncias algo invulgares e particularmente arriscadas. Podia correr bem ou não. Mas, se não o fizesse, não poderia esperar muito mais tempo de vida. Aqui tem um exemplo muito prosaico da aposta de Pascal: não tinha nada a perder.

    4) Quanto à natureza quimérica da Utopia, vou citar Oscar Wilde: “Um mapa do mundo que não assinale a Utopia não é sequer digno de um olhar, por omitir a única região à qual a humanidade aporta sempre. E quando a humanidade a ela aporta, avista mais longe e, percebendo-se de uma região melhor, volta a fazer-se à vela. O progresso é a realização das utopias” (O Espírito Humano no Socialismo. Lisboa: Edições Dinossauro, 2005).

    Registei também (fui ver o Dúvida Metódica) o nosso interesse comum pela Ética. James Rachels, é claro, e também, pelo menos para mim, Peter Singer.

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  6. Logros:

    O blogue foi criado e baptizado pelo Victor Malheiro. Julgo que quando escolheu o nome se quis referir ao trabalho anónimo e cinzento, que os "militantes de base" das nossas causas vão fazendo todos os dias sem esperar dele outra recompensa que para além daquela que possam obter da realização de um bem comum.

    No entanto, ainda que o compreenda, eu talvez me identificasse melhor com a formiga do Zeca Afonso. Aquela que, no carreiro, ia em sentido contrário...

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  7. Começo por registar a generosidade do meu amigo Cruz Mendes, quando me oferece a autoria deste espaço. A verdade que sem a sua parceria não me teria atrevido, não haveria blog.

    Tem toda a razão quando afirma que o nome remete, e de certa forma homenageia, o trabalho anónimo, cinzento e diário que os militantes e simpatizantes fazem em favor das causas em que acreditam, sem outro propósito que não seja o bem comum. Isto é política no seu sentido mais nobre, muito para além das suas conotações partidárias, que amiúde diminuem e limitam ao invés de aglomerar para ganhar dimensão e força. Sendo este um espaço assumidamente político, são as questões de cidadania, no seu sentido mais amplo, que melhor o definem. É um fito ambicioso, poderia ser chamado de utopia, mas é o nosso.

    Por oposição estão as cigarras. Que chegam, cantam de ouvido, e partem… ainda as ultimas canas não chegaram ao chão.

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  8. Divergências ideológicas à parte talvez isto possa ter o seu interesse:

    http://duvida-metodica.blogspot.com/2009/08/deus-existe-ou-nao-vai-uma-aposta.html

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